a vida tem destas coisas,
escreve a direito por rugas tortas.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
vidas secas
há vidas que se bebem,
tão recheadas de vida são...
outras,
tão vazias e secas, fumam-se,
esfumam-se.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
pontes, há quem chame a isso de amor
as pontes são várias escolhas,
não são apenas as viagens
que decidimos fazer:
são também aquelas gentes que,
em cada degrau da nossa vida,
escolhemos
para nos acompanharem na travessia,
são a motivação de ir daqui
para ali.
as pontes são isso,
um dois-em-um dos afectos
ou das causas
(que são afectos,
também,
pois não há causas válidas
sem o carinho das mãos
que nos escoram).
há quem chame a isso amor.
confundir-se com o objecto que cria
confundir-se com o objecto que cria,
fazer-se parte dele,
entranhar-se nele,
não viver sem ser em função dele,
não conseguir sair dali,
enquanto ele não está terminado,
sabendo que nunca estará
verdadeiramente terminado:
esse é o santo graal do criador,
é alcançar aquele momento
tão fugaz
em que se senta à mesa dos deuses,
um momento que pouco dura
pois o regresso à terra
urge,
até porque os deuses
não gostam que os terrenos
participem nos seus banquetes.
acende um cigarro
e observa o objecto,
orgulhoso.
depois,
vai ao duche lavar a alma
para que ela se encha
novamente
de dúvidas e inseguranças.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
é alcançar aquele momento
tão fugaz
em que se senta à mesa dos deuses,
um momento que pouco dura
pois o regresso à terra
urge,
até porque os deuses
não gostam que os terrenos
participem nos seus banquetes.
acende um cigarro
e observa o objecto,
orgulhoso.
depois,
vai ao duche lavar a alma
para que ela se encha
novamente
de dúvidas e inseguranças.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
peça única
caem as aparas
da peça que foi única.
já cada um de nós é o contrário:
crescemo-nos com aparas
que raspamos das almas
dos outros
que fundimos
com a nossa.
o belo das coisas utilitárias
a derrota e a morte
não existem:
são uma perfeita fraude.
as mãos que às vezes
se entrelaçam noutras mãos,
coisa de namorados,
miniatura de abraço e desejo,
parem vida que é lida
por olhos doutras vidas
buscando o belo
nas coisas utilitárias,
no paladar da vida
e na vitória sobre a morte
a cada momento do dia.
pois o sagrado imperativo
de viver
sobrevive sempre
e sempre.
coisas simples e veleidades
há quem desfrute
as coisas simples
no conforto hi-tech
do delírio tecnológico,
no encanto cosmopolita
da luz de plástico.
há quem tenha a veleidade,
apenas,
de desejar que o clima
não seja caprichoso.
cuidados de mãe
poderia contar-vos histórias
de como arrelentar a terra
em cuidados de mãe
que dá de mamar à cria indefesa.
mas não o farei,
vê-se que tendes mais que fazer.
e até porque eu não saberia
responder às vossas perguntas.
prémio
voltar a casa
com o fruto da ordenha nas tíbias mãos
com que, dentro de momentos,
satisfeito e premiado,
acariciará o cabelo da neta.
pede apenas que o sorriso dela
seja a última luz que possa recordar
no momento do embarque
para não-se-sabe-onde.
sabe apenas que é uma viagem.
da conversa dos materiais inertes II
entre o ferro e a pedra,
a palha coscuvilha
no seu costumado leva-e-traz.
em algum instante
comparecerá a maga
fabricando deliciosos repastos
com a inventiva
que só o amor inventa
dentro do que as privações permitem.
nesse momento,
a palha vai ficar caladinha
e arrumar os seus diz-que-disse
no bornal onde guarda as intrigas.
não vai querer servir
para dar de comer às chamas
que, aprisionadas na barriga do fogão,
tagarelam sobre a finitude da vida dos humanos
e espreitam atentas
ao momento em que poderão evadir-se.
o ferro e a pedra entreolham-se
em silêncio,
naquela cumplicidade própria
de quem sabe que não é fogo.
invisíveis
estão nos lábios que calam histórias,
nos olhos que já secaram todas as lágrimas,
as mãos que não se vêem,
que nunca se vêem:
no tempero das comidas,
na ausência de ruga da roupa engomada,
no aroma do soalho encerado,
no dedo em riste advertindo,
no afago, na carícia sem gesto.
da conversa dos materiais inertes I
pela fresta dos rigores
sempre entra
quem queira amaciar amarguras:
importaria, isso sim,
observar a conversa dos materiais inertes
que, nos simbolismos que vestem,
confabulam conspirações mudas
a recato dos mortais
que deles não dão fé.
desidentidades
há várias memórias
dentro de nós
que se contradizem.
sucede
quando nos crescemos
a ritmos diferentes.
e quem somos nós?
seremos aquela parte de nós
que recorda o nosso nome?
ou seremos uma outra parte,
uma parte que sabe quem somos,
uma parte que sabe que amamos
mesmo sem disso nos percatarmos?
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
de fendas na alma
cauteloso, espreita dentro de ti
tentando encontrar-se a si mesmo.
não tem a certeza
se em algum momento
caiu dentro da tua alma
por alguma daquelas brechas
que todas as almas têm.
tentando encontrar-se a si mesmo.
não tem a certeza
se em algum momento
caiu dentro da tua alma
por alguma daquelas brechas
que todas as almas têm.
não tem a certeza.
e isso apoquenta-o
é um apoquentar cruel
por sereno.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
e isso apoquenta-o
é um apoquentar cruel
por sereno.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
de rifões sábios
nem sempre são fáceis
aqueles dias de inverno,
viúvos de chuvas benfazejas,
aqueles dias quando a nudez povoa a rua
e não há com quem trocar opiniões
sobre o capricho das divindades
que decidem da fome e da fartura.
resta-nos apenas o rifão herdado
das sabedorias ancestras.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sal"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
das sabedorias ancestras.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sal"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
hoje
na caixinha onde guardamos
o passar dos nossos dias
e o sorriso dos entes queridos
habita também a luz
dos que nos trouxeram pela mão
até à casa a que com displicência
chamamos apenas de
hoje.
hora de olhar para trás
saibamos tratar com candura
a hora de olharmos para trás
e ver se estivemos mesmo lá,
nesse atrás para onde olhamos
ou se, afinal,
aquele que vemos nesse lá atrás
não passa de alguém
que queria ser um outro alguém:
aquele que faria com que hoje
o saudássemos com um sorriso
e não com um esgar amargado
de quem quis fazer
mas não fez.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto: Pedro Ribeiro
aquele que vemos nesse lá atrás
não passa de alguém
que queria ser um outro alguém:
aquele que faria com que hoje
o saudássemos com um sorriso
e não com um esgar amargado
de quem quis fazer
mas não fez.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto: Pedro Ribeiro
pastor de areias
empunhei o meu cajado
e pastoreio as areias
que, indóceis, se rebelam
contra a imposta transumância
elas quedam-se e eu marcho,
pastoreado por elas
e pelo sol arrogante
que desenha em meu rosto
histórias que não se escrevem
em livros de gente douta
apenas o areal cru
permite que o meu rasto
fique por lá registado
até que as ondinas,
em seus caprichos de diva,
lavem tudo o que escreveram
meus cansados calcanhares.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto
(c) Pedro Ribeiro
pastoreado por elas
e pelo sol arrogante
que desenha em meu rosto
histórias que não se escrevem
em livros de gente douta
apenas o areal cru
permite que o meu rasto
fique por lá registado
até que as ondinas,
em seus caprichos de diva,
lavem tudo o que escreveram
meus cansados calcanhares.
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in "Segredos do Vento e do Sol"
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