segredos do vento e do sol
sábado, 13 de fevereiro de 2016
segredos do vento e do sol
sabes
aquele local
onde o vento e o sol
acasalam em segredo,
a recato do embuste
a que há quem chame
felicidade?
sabes?
sabes
que nesse lugar às cores
se refugiam por vezes
as andorinhas fugidas
de continentes sombrios
e o fogos por acender
a que há quem chame
felicidade?
sabes?
sabes
que a leste de tudo o que leste,
aí se arquivam os alfarrábios
e as notas de rodapé
de todos os compêndios
ainda por escrever
onde estarão descritas
as características daquilo
a que há quem chame
felicidade?
sabes?
sabes
que talvez não saibas
que o vento e o sol conspiram
numa promiscuidade etérea
para que a chuva se afaste
das rotas dos caravaneiros
e das transversais da vida
mantendo puro esse lugar
a que há quem chame
felicidade?
(c) Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto: Pedro Ribeiro
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
rugas
a vida tem destas coisas,
escreve a direito por rugas tortas.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
escreve a direito por rugas tortas.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
vidas secas
há vidas que se bebem,
tão recheadas de vida são...
outras,
tão vazias e secas, fumam-se,
esfumam-se.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
pontes, há quem chame a isso de amor
as pontes são várias escolhas,
não são apenas as viagens
que decidimos fazer:
são também aquelas gentes que,
em cada degrau da nossa vida,
escolhemos
para nos acompanharem na travessia,
são a motivação de ir daqui
para ali.
as pontes são isso,
um dois-em-um dos afectos
ou das causas
(que são afectos,
também,
pois não há causas válidas
sem o carinho das mãos
que nos escoram).
há quem chame a isso amor.
confundir-se com o objecto que cria
confundir-se com o objecto que cria,
fazer-se parte dele,
entranhar-se nele,
não viver sem ser em função dele,
não conseguir sair dali,
enquanto ele não está terminado,
sabendo que nunca estará
verdadeiramente terminado:
esse é o santo graal do criador,
é alcançar aquele momento
tão fugaz
em que se senta à mesa dos deuses,
um momento que pouco dura
pois o regresso à terra
urge,
até porque os deuses
não gostam que os terrenos
participem nos seus banquetes.
acende um cigarro
e observa o objecto,
orgulhoso.
depois,
vai ao duche lavar a alma
para que ela se encha
novamente
de dúvidas e inseguranças.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
é alcançar aquele momento
tão fugaz
em que se senta à mesa dos deuses,
um momento que pouco dura
pois o regresso à terra
urge,
até porque os deuses
não gostam que os terrenos
participem nos seus banquetes.
acende um cigarro
e observa o objecto,
orgulhoso.
depois,
vai ao duche lavar a alma
para que ela se encha
novamente
de dúvidas e inseguranças.
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Segredos do Vento e do Sol"
Foto:
(c) Pedro Ribeiro
peça única
caem as aparas
da peça que foi única.
já cada um de nós é o contrário:
crescemo-nos com aparas
que raspamos das almas
dos outros
que fundimos
com a nossa.
o belo das coisas utilitárias
a derrota e a morte
não existem:
são uma perfeita fraude.
as mãos que às vezes
se entrelaçam noutras mãos,
coisa de namorados,
miniatura de abraço e desejo,
parem vida que é lida
por olhos doutras vidas
buscando o belo
nas coisas utilitárias,
no paladar da vida
e na vitória sobre a morte
a cada momento do dia.
pois o sagrado imperativo
de viver
sobrevive sempre
e sempre.
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